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“É um custo que não temos como arcar”, diz moradora de vila universitária da UFOP sobre conta de luz

No email enviado pela PRACE, é comunicado que haverá corte de energia caso a conta referente ao mês de setembro não seja paga até amanhã, sexta-feira


A Vila Universitária da UFOP tem oito casas e, segundo o site da instituição, abriga 168 estudantes | Divulgação


Desde julho deste ano, quando foi aprovada a Resolução Cuni 2.569, que definiu o compartilhamento do pagamento das taxas de energia elétrica entre os integrantes das moradias estudantis e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), ficando a instituição responsável pelo pagamento da taxa mínima de consumo, os moradores estão vivendo dias de preocupação. De acordo com estudantes da Vila, uma das moradias estudantis localizada em Ouro Preto, a Universidade está exigindo que os moradores paguem as contas de energia. Além disso, solicitam que a titularidade das contas seja transferida para o nome de um dos moradores.




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A decisão de que eles teriam que pagar as contas de energia elétrica os pegou de surpresa. “Em momento algum fomos procurados para um diálogo. Soubemos por e-mail. Simplesmente ignoraram a condição financeira dessas pessoas que são de baixa renda e que por isso precisam da moradia”, afirma a aluna do curso de Serviço Social e titular do Conselho Universitário, Graciele Rodrigues Borges de Almeida.


Graciele também informou que, além de ficar sob responsabilidade dos alunos pagar as contas, a Universidade exigiu que um dos moradores de cada casa assuma a titularidade das contas. “Esse comunicado também veio por e-mail. Até procuramos saber como isso funciona, mas, segundo informações, o imóvel precisa estar no nome dessa pessoa. A UFOP não vai fazer isso. Nem nos deixam mudar algo na casa, por conta dos critérios estabelecidos para ocupá-la. Temos cômodos que estão todos mofados e não podemos fazer nada, mas eles também não tomam providências”.


Todos esses acontecimentos, resultaram em uma Assembleia Geral, realizada no dia 25 de agosto deste ano, onde a Universidade firmou compromissos que, segundo Graciele, não foram cumpridos. “Em João Monlevade, instalaram placas fotovoltaicas. Nos disseram que elas iriam funcionar em agosto e que haveria uma transferência de crédito para as moradias de Ouro Preto e Mariana, de modo que iríamos pagar uma taxa mínima. Mesmo assim, garantiram que a cobrança seria feita quando elas estivessem funcionando. Nada disso aconteceu”, conta a estudante de Serviço Social.




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Graciele também relatou que, durante a Assembleia, questionaram aos representantes da UFOP se a energia seria cortada, caso não conseguissem pagar. A resposta foi de que isso não aconteceria. Veja no vídeo abaixo.




Entretanto, no email recebido ontem, quarta-feira, 26, a Pró-reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (PRACE) comunica que a energia da moradia será cortada caso os estudantes não paguem a conta com vencimento em 22 de outubro até sexta-feira, 28, ou caso a titularidade da conta não seja transferida para o nome de um dos moradores até o dia 10 de novembro.


Email enviado pelo assistente administrativo da PRACE | Arquivo pessoal

No mesmo e-mail, a PRACE fala sobre o pagamento do auxílio feito pela UFOP, referente aos meses de setembro e outubro. Esse valor, de acordo com Graciele, é uma ajuda de custo, prevista para até o início do próximo ano, que pode ser de R$238 ou R$298, mas que não ameniza o impacto financeiro no bolso dos estudantes. “Na minha casa, por exemplo, as contas desses dois meses vieram mais de R$800 cada uma. Tem moradia que chegou a um salário mínimo. É um custo que não temos como arcar, pois temos gastos com as despesas e até manutenção da casa, que é uma obrigação da UFOP, mas que ela não cumpre”, ressalta.




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Impacto na vida dos estudantes


As exigências da Universidade Federal de Ouro Preto, principalmente no fim do período, onde a maioria dos estudantes estão realizando provas, gerou consequências emocionais. “Virei representante da casa, participei de várias reuniões, peguei muitas responsabilidades e fiquei exausta. No dia que recebemos a primeira conta de mais de R$800 sai para a rua de pijama e fiquei desnorteada. Adoeci mentalmente e tive que procurar atendimento psicológico no CAPS, porque nem isso consegui na Universidade”, conta Graciele.


Outro estudante do curso de Ciência Biológicas, que prefere não se identificar, disse que a situação prejudicou o desempenho acadêmico. “A gente recebe um e-mail falando sobre corte de energia um dia antes de fazer uma prova. Não tem como não ficar desestabilizado. Isso nos deixa triste e só escancara uma distinção social que existe”.


Para esse mesmo aluno, a decisão da UFOP pode também fazer com que alguns estudantes desistam do curso. “Precisamos de dinheiro para arcar com os gastos em Ouro Preto. Muitos sobrevivem com as bolsas, que variam entre R$200 e R$400, e dela temos que tirar a caixinha e, algumas vezes, pagar coisas que nem estavam nos planos. Lá em casa, por exemplo, tivemos que comprar, recentemente, geladeira, máquina e microondas, porque estragaram. A energia é um gasto a mais, que impacta a nossa vida financeira e acaba sendo motivo de desistência. De onde tirar um dinheiro que não temos?”, indaga.



O que diz a UFOP


Em contato com a Pró-reitora de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFOP, fomos informados de que o pagamento de energia elétrica foi discutido, em julho deste ano, com os moradores, em reuniões com os representantes da Vila Universitária e dos Conjuntos I e II.




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A PRACE também disse que as resoluções das moradias (CUNI 1775 e 1910) que determinavam o pagamento integral pelos moradores foi alterada, garantindo o custeio parcial por parte da Universidade. Desse modo, desde setembro de 2022, o auxílio energia elétrica, que varia entre R$178 e R$298, conforme a capacidade de cada casa, está sendo creditado diretamente na conta bancária do representante de cada moradia. Segundo eles, a proposta apresentada foi aprovada por unanimidade em reunião do Conselho Universitário.

Sobre o compromisso feito na Assembleia Geral, a PRACE disse que ele segue de pé, salientando que a informação dada na época é de que “a universidade precisa iniciar a utilização da energia fotovoltaica, ainda não realizada, para que seja possível a ampliação para as moradias, com previsão para o próximo ano”.

A Pró-reitora de Assuntos Comunitários e Estudantis também destacou que, apesar da situação orçamentária atual, as bolsas permanência continuam sendo pagas. Informaram também que os bolsistas da PRACE seguem com a bolsa alimentação integralmente gratuita, mesmo com o aumento dos valores das refeições para a UFOP, que era R$6,20, em 2019, e passou para R$11,11 neste ano. Eles também disseram que na mesma reunião de julho, o Conselho Universitário (CUNI) aprovou a alteração definitiva do valor das bolsas permanência dos estudantes classificados na categoria D, sendo o menor valor de R$200.

A PRACE ainda destacou que os atendimentos psicológicos e de orientação acadêmica foram aumentados com o retorno das atividades presenciais, incluindo a recepção de novos profissionais no Nace Mariana e ampliação da possibilidade de atendimento remoto. Também reafirmaram que, em conjunto com a Pró-Reitoria de Planejamento e Administração (PROPLAD), “seguirão trabalhando e dialogando com a comunidade universitária para que, mesmo diante de recursos humanos financeiros cada vez mais escassos, a UFOP continue sendo referência nacional na área de assistência estudantil”.



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