A importância da fé e da religiosidade na pandemia

Por Darci Fernandes Leão

Padre da Arquidiocese de Mariana

Mestre e Doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Lateranense em Roma na Academia Afonsiana


Neste momento de pandemia, muitas igrejas não estão realizando cultos e celebrações | Banco de Imagens


A humanidade sempre passou e teve de enfrentar grandes desafios. Nos últimos tempos, apesar de toda evolução técnico-científica, muitos problemas persistem e parece longe de se encontrar uma solução. Têm se agravado bastante, em vários países, a fome e a miséria, consequências infalíveis da ganância, do egoísmo e da sede de poder de muitas pessoas e nações. Basta recordar as inúmeras notícias que recebemos todos os dias nos informando que países ricos desejam se isolarem e, construírem muros em suas fronteiras com justificativas de se protegerem, mas no fundo, não querem é acolher os migrantes que estão morrendo por causa de políticas públicas implantadas ou incentivadas por esses mesmos países que se dizem desenvolvidos e interferem em outras nações com a finalidade de aumentarem ainda mais o seu poderio e constante dominação.


O efeito nefasto da corrupção, no mundo político, nos assola a todo instante e parece, de fato, uma doença crônica, particularmente em nosso Brasil, sem falar da crescente violência e dos crimes ambientais tão constantes e assustadores. Tudo isso aliado à falta de vontade política de muitos dirigentes na busca de resoluções efetivas e duradouras. É fato que o mundo, particularmente, nos últimos tempos já se encontrava em grande crise, não somente econômica, mas uma crise de valores.



"Para vencermos o mal provocado pelo novo coronavírus, a fé e a religiosidade podem nos ajudar muito. No entanto, devemos ter atenção, pois a fé e a religiosidade que efetivamente ajudam a humanidade não são sentimentos baseados em concepções de cunho fundamentalista, individualista e que menosprezam a ciência. A verdadeira fé não é contra o desenvolvimento científico. Devemos entender que a fé é algo a mais".


A própria economia, há muito vem sendo pensada não a serviço da humanidade, mas a serviço de interesses do mercado em benefício de uma minoria privilegiada. É preciso ressaltar que mesmo antes da pandemia provocada pelo novo coronavírus, contra a qual todos estamos lutando no momento, com grandes perdas e sofrimentos, o egoísmo, que pode ser, sem dúvida, comparado a um vírus, igualmente letal ou pior do que este da presente pandemia, já havia, infelizmente, há muito tempo se instalado na mente e no coração de muitos com raízes bem profundas.


Para vencermos o mal provocado pelo novo coronavírus, a fé e a religiosidade podem nos ajudar muito. No entanto, devemos ter atenção, pois a fé e a religiosidade que efetivamente ajudam a humanidade não são sentimentos baseados em concepções de cunho fundamentalista, individualista e que menosprezam a ciência. A verdadeira fé não é contra o desenvolvimento científico. Devemos entender que a fé é algo a mais. Na medida em que o desenvolvimento e as orientações científicas surgem a favor da preservação da vida humana, podem ser considerados, sem dúvida, sinais da comunicação de Deus para salvar o seu povo. Não podemos esquecer que estamos diante de uma pandemia, ou seja, diante de uma verdadeira guerra e lutamos para a preservação de vidas. Devemos enfrentar essa batalha fazendo com inteligência e usando bem a razão. Enquanto não houver vacinas descobertas e oferecidas pela ciência, o que não depende tanto da maioria de nossos leitores, cabe-nos fazer a nossa parte para a não propagação do vírus.


É preciso ativar em nós uma atitude permanente de cuidado, que requer atenção à higienização e o distanciamento social. Sabemos que isso tudo não é muito tão fácil, sobretudo para os mais pobres. Por isso a nossa fé em Jesus Cristo deve nos motivar a manter firme a esperança de que toda essa realidade passe e, mesmo no sofrimento, o amor de Deus por nós nunca se diminui. Em todas as situações devemos sentir amados e queridos por Deus. A fé cristã nos motiva a vivermos como irmãos, por isso a nossa oração e as nossas ações deverão ser também vividas em bem do outro. Sendo assim, nossas atitudes pessoais devem levar em consideração o outro que, na concepção da fé cristã, não é simplesmente o outro, mas é nosso verdadeiro irmão.


Ao seguir as orientações dos órgãos de saúde, neste tempo de verdadeira crise, cada um de nós estará preservando não só a própria vida, que é dom precioso de Deus, mas a vida do outro, igualmente digna e importante. Com certeza, a experiência desse modo de viver demonstra o nosso ser e agir cristão. Claro que as muitas restrições para evitar aglomerações e a propagação do vírus, afetam o comércio e até a economia local e mundial. Por esse motivo, muitos de nós, particularmente a maioria dos gestores tem a tentação de afrouxar as normas restritivas para que se aqueça a economia. Então devemos pensa: de que adianta uma economia forte se para alcançá-la muitas vidas serão ceifadas? É preciso pensar mais no outro e colocar a economia a serviço da pessoa e não a pessoa a serviço da vida econômica.


É tempo de refletir com a fé, sem menosprezar a razão. A economia um dia se recupera, mas a vida humana ceifada por esse vírus, jamais! Será que não vale a pena um sacrifício e uma abnegação da parte de todos para um bem maior e fundamental, que é a vida humana? Para discernirmos a favor desse bem, sem dúvida, a fé pode nos ajudar e muito. A fé nos ajuda a caminhar e exercitar valores importantes, como a partilha e a solidariedade. Havendo partilha e solidariedade ninguém morrerá de fome, todos seremos salvos. Louvamos aqui, atitudes de pessoas, empresas e igrejas que incentivam esses valores. Muitos templos estão fechados nessa pandemia, estão de parabéns seus dirigentes e responsáveis. Isso demonstra respeito, sensibilidade e seriedade para com a vida.


Pena que não podemos afirmar isso a respeito de muitos outros templos, cujos dirigentes insistiram e ainda insistem em permanecerem com eles abertos para não perderem o dízimo, mantendo a prática da teologia da prosperidade. Precisamos nos cuidar e ajudar as pessoas a discernirem o caminho certo que as conduz ao aconchego, à preservação, ou seja, à vida e não à morte. Quando houver mais um pouco de segurança, os templos serão abertos e a participação dos fieis gradativamente e com prudência e responsabilidade voltará ao normal. Na esperança paciente e na alegria de contribuir naquilo que for possível para que esse tempo favorável de abertura gradual dos templos religiosos não demore muito, estejamos unidos e vigilantes para percebermos e discernirmos quais são os verdadeiros sinais de vida em nosso meio e quais são os sinais de morte que teimam em continuar na defesa de uma economia para poucos privilegiados.


Que a nossa Fé e o nosso sentimento religioso sejam cada vez mais purificados pela concretização do amor a Deus, nosso Pai e Senhor da vida e do amor fraterno ao nosso próximo. Todos que acreditam em Deus possam se adaptar e, até mesmo, encontrar meios eficazes de manifestar a sua fé e a sua religiosidade. Tempos novos surgirão, o novo coronavírus será vencido! Enquanto vamos lutando contra ele, não nos esqueçamos de lutar também, ao mesmo tempo, contra o egoísmo interior, este vírus também letal, que mata as nossas relações humanas e ofuscam o sentido da existência.


O novo coronavírus será vencido, mais cedo ou mais tarde. Para derrotá-lo é preciso prudência, juízo, união e informação segura. Esperamos que um dia o egoísmo também seja vencido. Contra este mal lutaremos com as armas da fé, genuinamente cristã, que se traduz no amor, sem o qual o vírus do egoísmo continuará reinando absoluto e com consequências drásticas para todos!

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